quarta-feira, 20 de junho de 2012

PEDAGOGIA EM ESPORTES DE COMBATE

Introdução

O esporte tem como uma de suas características a competição, na qual são estabelecidas regras a fim de que os competidores, dentro de uma modalidade esportiva, estejam em condições de igualdade para a comparação de performance entre eles. (GALATTI E COLABORADORES, 2007).
Embora amplamente conhecido, o termo Luta, por vezes, é confundido ou usado como sinônimo de Artes Marciais ou Modalidades de Combate. Esta imprecisão terminológica gera como consequências, praticas pedagógicas e metodológicas com pouca ou sem fundamentação teórica (FRANCHINI,1998).
Para Franchini (1998) o processo de ensino das diferentes modalidades de lutas está baseado em uma intensa tradição oral, disseminada de geração em geração, com pouca fundamentação teórica para sua otimização.


Esporte de combate

É um esporte de contato competitivo onde dois combatentes lutam o um contra o outro usando as certas regras de contato, com o objetivo de simular partes do combate corpo-a-corpo verdadeiro. As artes marciais mistas e a esgrima são os exemplos de esportes de combate.
As modalidades esportivas de combate são lutas ou atividades derivadas das artes marciais que adquiriram/incorporaram características do esporte moderno: rígidas por unidades institucionais, como federações e confederações e que contam com regras de pratica e combate bem definidas, campeonatos, medalhas, sistemas competitivos e classificatórios (DEL VECCHIO E FRANCHINI).

As técnicas usadas podem ser classificadas em três domínios: Bater; Agarrar; Uso de arma.

Algumas regras do jogo se especializam em uma área, enquanto outros permitem a superposição.


Lutas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)

Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) da Educação Física se constituem num referencial teórico que busca a reflexão sobre os conteúdos curriculares a nível Nacional, Estadual e Municipal. Tendo em vista orientar e garantir a coerência das políticas de melhoria da qualidade de ensino, socializando discussões, pesquisas e recomendações, além de nortear a prática pedagógica do docente desta área, principalmente objetivando mostrar as formas e meios de adequação no que se refere à construção do planejamento com vistas no projeto político-pedagógico da escola, para que este se efetive de maneira dinâmica e concreta (SOUZA E FAVERO, 2010)
A Educação Física é entendida como uma disciplina que trata do conhecimento da cultura corporal de movimento, os esportes, a dança, a ginástica, as lutas, entre outras temáticas que se relacionam com a cultura do movimento e com o contexto histórico-social dos alunos.
Para que o educando tenha um desenvolvimento completo e adequado, é necessário que ele seja estimulado durante a vida escolar para que possa conhecer e aprimorar suas habilidades e capacidades como um todo.
Para tanto, deve ter a oportunidade de vivenciar práticas corporais como: esportes, jogos, lutas e ginásticas; atividades rítmicas e expressivas; conhecimentos sobre o corpo.
De acordo com os PCN’s de Educação Física, o professor, durante a elaboração de seu planejamento, deve considerar o corpo como um organismo integrado, que interage constantemente com o meio físico e cultural, que sente dor, prazer, alegrias, medos etc.
É importante destacar que todas as práticas da cultura corporal de movimento possuem expressividade, pela qual, por meio de sua vivência individual, o ser humano produz a possibilidade de comunicação por gestos e posturas e ritmo, pelo qual, desde a respiração até a execução de movimentos mais complexos, se requer um ajuste em relação ao espaço e ao tempo.
As lutas são disputas em que o(s) oponente(s) deve(m) ser subjugado(s), mediante técnicas e estratégias de equilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço na combinação de ações de ataque e defesa. Constituem-se em um vasto conjunto de manifestações culturais históricas, que deve ser aprendido. Importante é, também por esse motivo, diversificar as lutas, não reduzindo o ensino a uma ou duas modalidades. Nesse ponto o professor que trabalha de forma extracurricular tem uma importância muito grande, pois oportuniza maior variedade de modalidades de lutas.
Segundo os PCN’s (BRASIL, 1988: 96) os objetivos da prática das lutas na escola, são: a compreensão por parte do educando do ato de lutar (por que lutar, com quem lutar, contra quem ou contra o que lutar; a compreensão e vivência de lutas no contexto escolar (lutas X violência; vivência de momentos para a apreciação e reflexão sobre as lutas e a mídia; análise dos dados da realidade positiva das relações positivas e negativas com relação a prática das lutas e a violência na adolescência (luta como defesa pessoal e não para “arrumar briga”) (FERREIRA, 2009).
No Brasil, temos uma gama muito grande de lutas, onde cada cidade ou escola tem uma realidade e uma conjuntura que possibilitam a prática de uma parcela dessa gama. Dentre estas as quais podemos citar a Capoeira, o Caratê, o Judô, e algumas lutas muito populares e comuns na Escola, em festivais e gincanas como a Luta-de-braço e o Cabo de guerra, entre outras, que não podem deixar de ser conhecidas, pois constituem um leque muito amplo de possibilidades de aprendizagem.
Por meio das lutas, é possível contribuir com outras áreas do conhecimento, realizando um trabalho interdisciplinar em que o aluno entrará em contato com a história de seu país e de outros povos e nações com culturas diferentes, com possibilidades de vivenciar movimentos novos e enriquecer a sua cultura corporal.
As lutas estão presentes nos currículos de Educação Física desde que surgiu o primeiro currículo oficial, em 1939. Segundo o Ministério da Educação e Cultura, através da publicação dos arâmetros Curriculares Nacionais, as lutas colaboram na construção do indivíduo a partir do fato que trazem elementos culturais e sociais importantes para isso.

Para o ensino-aprendizagem das lutas

Sabendo que alunos diferentes frequentarão aulas de lutas, tendo níveis de habilidades e conhecimento variáveis e características pessoais diversas, o professor deve assumir que transmitindo a mesma informação para ambos, não vai ter o mesmo sentido e significado para os praticantes, proporcionando assim motivação diferente entre eles.
O professor precisará trabalhar a luta como um jogo de oposição, sendo composta pela aplicação de habilidades e ações motoras, trabalhando estas ações em ambientes aberto. Sabendo da relação de oposição inerente às L/AM/MEC, da permissão de ataque a qualquer momento e simultaneamente, além da possibilidade de contra-ataques, as pessoas que organizam as praticas devem assumir o processo para se solucionar os problemas, e não a repetição da solução do problema (FRANCHINI, 1998; WINCKLE; OZMUN, 2003).
Para isto vale fazer valer o uso do conhecimento das fases de aprendizagem: cognitiva, associativa e autônoma. Vasco (2204) prioriza também três esferas de preocupação e atuação das lutas. A primeira é cognitiva, na qual deve-se estimular a divulgação cultural, noções físicas como equilíbrio, o controle da raiva e medo. A segunda privilegia a cooperação mútua para a prática da luta, dado sem companhia não se luta, a relação espaço-tempo, com a exploração das quedas e da vulnerabilidade do companheiro, explorando as quedas em função da necessidade de se puxar, empurrar, dominar e tocar o companheiro sem a intenção de machuca-lo. A terceira, psico-afetiva, esta relacionada com a tolerância e respeito as diferenças individuais, ao controle de impulsos, como agressividade.
Existe uma proposta para o ensino da luta de modo a considerar diferentes faixas etárias:
6 a 8 anos: os alunos devem ser conduzidos à atividades de pré-luta, denominadas macro-grupais, partindo de jogos de oposição para jogos de lutas propriamente ditos.
8 a 10 anos: deve-se organizar praticas com aproximação micro-grupal, estimulando a oposição real e direta e o conforto corpo a corpo. Nesta faixa estaria deve-se focar na maior especifidade, diminuição das atividades grupais e aumento das atividades em duplas.
Desta maneira, as etapas seriam organizadas por diferentes fases, idades, estruturas das atividades e metodologias de ensino. Segue tabela:

Etapas
Fases
Idade (anos)
Estrutura da atividade
Metodologia
Pré-luta
Aprozimação Macro-grupal
6-8
Jogos de oposição
Jogos de luta
Global Instrutiva
Pré-luta
Aproximação Microgrupal
8-10
Atividades de lutas
Jogos de oposição
Jogos de luta
Global Instrutiva
Participativa
Luta
Aproximação Dual
10-12/13
Jogos de lutas
Modalidades esportivas de combate
Mista
Participativa-Emancipatórias
Luta
Aperfeiçoamento
+ 16
Modalidades Esportivas de combate
Mista
Emancipatória

Através desta tabela, pode-se sugerir, como iniciação, transição dos jogos de cooperação para os de oposição. Neste caso seriam privilegiadas atividades a longa distancia depois média e, por fim corpo a corpo. Desta maneira, podemos considerar o gradiente de envolvimento para atingir o objetivo, 1°- Objetivo, 2°- Território, 3°- Corpo (VILLAMON; MOLINA, 1999) .
Para tal, são propostas cinco categorias de jogos (OLIVER, 2002):
1: Jogos de rapidez e atenção: Estimulam a movimentação intensa, com alternância dos papeis de atacante e atacado e que evitam o contato próximo com o colega.
2: Jogos de conquistas de objetos. Aproximam os adversários, mas as principais ações de oposição são feitas em direção a objetos a serem conquistados. Os papeis de atacante de defensor são separados
3: Jogos de conquistas de territórios : implicam em aproveitamento e diversificação das ações de desestabilizadoras para chegar a  seus fins. É preciso puxar, carregar, empurrar, fazer virar e esquivar-se, desviar-se e resistir. O contato se torna inevitável.
4: Jogos para desiquilibrar: Agir em direção ao adversário, sem mediação de objeto ou de território. Os papéis de ataque e defesa são alternados e/ou simultâneos.
5: Jogos para reter, imobilizar e se livrar: enfrentamentos variados e que obrigam o corpo a corpo. São jogos para resistir e livrar-se. Os papéis são separados e/ou combinados.
6: Jogos para combater: Estimula-se o combate completo, sendo que as condutas de ataque e de resistência são concomitantes. Aqui torna-se indispensável encadear e coordenar todas as ações necessárias ao combate.
O processo pedagógico e metodológico de ensino – aprendizagem das L/AM/MEC deve superar as praticas fechadas cíclicas e não reflexivas. Com isso professores e técnicos devem privilegiar a vivencia critica e reflexiva das lutas, feita a partir de situações- problema, aprimoradas de modo aberto e acíclico e que se assemelhem ao exercício propriamente dito das lutas: A luta.

Violência nas escolas  

A violência, bem sabemos, é uma característica presente na sociedade como um todo e, neste caso, a escola não fica imune a ela. Ademais, comportamentos mais ou menos agressivos também se fazem notar nas aulas de Educação Física.
Existem alguns argumentos que impedem que o professor incite essa prática. O primeiro deles é a falta de vivência da maioria dos professores com as lutas, ou seja, são poucos os que já lutaram antes; o segundo é a preocupação com a violência que se imagina que as lutas possam gerar. Uma coisa que alunos e professores precisam tomar consciência, é que o professor não precisa saber fazer para saber ensinar. Existem meios para que o professor possa trabalhar as lutas com os alunos sem tê-las praticado antes (RONDINELLI).
Também pode se pensar a violência como consequência do trabalho com as lutas, já que as crianças manteriam contato corporal intenso durante a prática. Será que isso é verdade? Alguns estudiosos da área, como Nascimento e Almeida em “A tematização das lutas na Educação Física escolar” afirmam que a violência pode sim se apresentar como consequência das lutas, mas também pode se apresentar durante a prática do futebol e do basquetebol, por exemplo. Tudo depende de como o professor conduzirá a aula. Por isso, violência não é desculpa para que as lutas não sejam trabalhadas na sua escola (RONDINELLI).
Olivier (2000, p. 11), ao referir-se à violência, entende-a como: [...] inerente às relações sociais”, e a concebe como “[...] modos de expressão e de comunicação”, que surgem em situações de conflito, de ameaças, de incerteza. O autor posiciona-se no sentido de que as atividades de luta na escola, sistematizadas e metodologicamente pensadas e conduzidas, servem como importantes elementos de estruturação motora, psico-afetiva e social, que ajudam “[...] a criança a gerir e a controlar a complexidade das relações violentas no interior do grupo social”


A Importância da Ludicidade

A competição, a arte, o jogo e as brincadeiras mostram o ser humano em busca de si mesmo com a finalidade de garantir sua sobrevivência, conquistar sua felicidade e alcançar uma real qualidade de vida. Se alguém deseja conquistar esta situação, é necessário caminhar na direção de uma Revolução do Lúdico, baseada na esperança, no desafio, na liberdade, nos conflitos, no amor, na alegria, na cooperação, na beleza e na imaginação.  
A ludicidade é a ponte facilitadora da aprendizagem. Sugere-se que o professor de lutas repense e questione sobre sua forma de ensinar. Utilizar a corrente da Motricidade Humana que prega o uso do lúdico como fator motivacional para qualquer tipo de aula, esportiva ou não.


Competição Infantil

Quando se aborda a temática da criança, não se pode deixar de discutir a questão da competição infantil, não cabe neste estudo buscar as origens das competições, mas sim, mostrar uma realidade que está presente em nossa sociedade, que por sinal é altamente competitiva.
O esporte tem como uma de suas características a competição, na qual são estabelecidas regras a fim de que os competidores, dentro de uma modalidade esportiva, estejam em condições de igualdade para a comparação de performance entre eles. Também no esporte infantil, a competição está presente e, muitas vezes de modo marcante, como na modalidade Karatê de contato, na qual as regras dos eventos competitivos acabam tornando-se parâmetro para a elaboração das aulas, sendo o processo de ensino e aprendizagem, em certa medida, determinado e orientado para a competição. (GALATTI E COLABORADORES, 2007).
Bruhns (1993) comenta que quando o esporte competitivo atua como instituição, com o acordo no final, diferenciam-se perdedores e vencedores.
Segundo Bayer, as modalidades esportivas coletivas podem ser agrupadas em uma única categoria pelo fato de todas possuírem seis invariantes: uma bola (ou implemento similar), um espaço de jogo, parceiros com os quais se joga, adversários, um alvo a atacar (e, de forma complementar, um alvo a defender) e regras específicas.
São essas invariantes que geram a categoria Esporte Coletivo, ou Jogo Esportivo Coletivo, e que permitem visualizar uma mesma estrutura de jogo. Possuindo estrutura comum, é possível considerar as modalidades esportivas dentro de uma mesma lógica, o que as tornam passíveis de um mesmo tratamento pedagógico para seu ensino. Esta abordagem de ensino dos esportes coletivos considera as semelhanças entre as várias modalidades, definindo seis princípios operacionais comuns, divididos em dois grandes grupos, um para o ataque e outro para a defesa.


Concepção

Como é desenvolvida a Luta na Escola. Em que volume e frequência? Para todos os alunos ou àqueles que demonstram interesse pessoal? A valorização das lutas na escola é comum a todos os professores? A importância dada? Quais os objetivos? A forma de ensinar dentro da escola é a mesma das academias? Ou a metodologia é a mesma usada para ensinar os esportes. Será que há espaço no planejamento curricular de Educação Física para os conteúdos das lutas?
Nem sempre a Educação Física Escolar é desenvolvida de forma significativa com grande abordagem dos conteúdos. Estes estão resumidos à prática desportiva, principalmente aos esportes coletivos como voleibol, basquetebol, handebol e futebol, limitando a produção de conhecimento corporal e cultural do aluno. Esta tendência de desenvolvimento de modalidades desportivas no âmbito escolar, como única forma de entendimento da Educação Física, pode gerar uma caracterização das aulas de Educação Física como treinamento desportivo.
A Educação Física escolar já foi confundida com o esporte de maneira equivocada entre as décadas de 60 e 70, atendendo a interesses políticos que visavam se beneficiar desta condição. Desta forma, o esporte foi desenvolvido no âmbito escolar em uma concepção tecnicista, sendo aplicado desde as primeiras séries do ensino fundamental. Porém, já naquele período, havia quem criticasse esta iniciação precoce ao jogo desportivo já que Educação Física era sinônimo de esporte, e era obrigatória desde o ensino fundamental.
É quase natural, hoje, a extensão dessa relação com o esporte também para as lutas. As lutas são entendidas na visão tecnicista, sendo considerados apenas os seus movimentos físicos em detrimento das outras dimensões culturais, como história, filosofia e comportamento humano.
A aplicação da luta na Educação Física Escolar é entendida como uma iniciação esportiva, como aulas alternativas ou, ainda, como desporto, visando à formação de equipes escolares. Quanto à forma, são desenvolvidas como formas adaptadas ou simplificadas das lutas conhecidas, como atividades recreativas ou como jogos de luta. Também são comuns abordagens sob os seus outros aspectos que não o de combate corporal: a Capoeira é trabalhada como dança, o “Tai Chi Chuan” é aplicado como ginástica, bem como outras modalidades.
Quanto à forma de desenvolvimento, as lutas podem ser inseridas no planejamento curricular do professor de Educação Física, ou trabalhadas extracurricularmente. Neste caso, geralmente, ministradas por um instrutor de uma luta específica e não formado em Educação Física, ingressando os alunos que têm interesse na modalidade.
Contudo, por se tratar de apenas uma modalidade, e, de não serem conduzidas segundo um planejamento coerente com as necessidades pedagógicas dos alunos, não pode o professor de uma turma de alunos considerar estas aulas extracurriculares desculpa para deixar de desenvolver os conteúdos das lutas nas aulas de educação física. Tampouco usar o pretexto de que a escola dispõe de aulas de lutas para aqueles que desejarem. Lembrando que a metodologia que pode estar sendo utilizada pelo instrutor de luta consista em um método inapropriado para a especificidade física e afetiva dos alunos.
Segundo a concepção de alguns autores, as lutas podem ser vistas como uma unidade (“lutas escolares”), onde o professor permitiria uma “mistura” de elementos das diferentes modalidades de lutas, consolidados em uma modalidade escolar, com regras próprias.
Outros autores entendem que a educação física deve proporcionar uma iniciação à modalidade de luta. Nessa concepção, trabalhar lutas na educação física escolar, traduz-se em uma demonstração de várias modalidades aos alunos, como “opções” para que estes possam optar pela modalidade esportiva que desejam praticar, fora da escola. Assim, o professor não necessita ser formado em uma luta específica, pois pode facilmente usar de outros recursos como passeios a torneios de lutas, filmes e vídeos demonstrativos, para “demonstrar” apenas.
O trabalho do professor na Educação Física Escolar vai além de ensinar ou promover a iniciação em uma modalidade esportiva, ou seja, a luta como um fim nela mesma. Cabe ao professor, atuar como um educador, pensando no aluno como uma unidade envolvida em um todo. Assim, o aluno deixa de ser um depositório de informações, para ser um educando atuante, que não aceita apenas um aglomerado de conhecimento, mas um conhecimento que lhe sirva para a vida.
Se atualmente a preocupação central e primeira da Educação Física escolar é com a formação integral da personalidade do aluno, de modo a levá-lo a ser o melhor que ele puder ser conscientemente de sua realidade, autônomo e capaz de auto-sugestão, então, a atenção de seus professores deveria estar mais voltada para os processos de aprendizagem e desenvolvimento de sua personalidade do que para os produtos comportamentais específicos, provenientes de desempenhos físicos.
É claro que não é o processo educativo enquanto conjunto de técnicas, metodologias e sistemas reprodutores de resultados que deve ser encarado como prioritário. Mas, especialmente, o processo de crescimento de uma criança em formação, exposta as agressões do meio em que vive principalmente na escola. A Educação Física tem de respeitar os níveis de maturidade motora, a capacidade de rendimentos e os interesses individuais de cada criança. Caso contrário, não passará de um adestramento físico.
As lutas na educação física escolar devem, também, pretender a formação integral da personalidade do aluno, proporcionando estímulo para o despertar conscientemente de sua realidade. Nessa concepção os movimentos técnicos são preteridos pelos desenvolvimentos cognitivos, psicomotores e afetivos. Nesse ponto todas as vivências na prática de lutas serão aproveitadas, mesmo a autopercepção das dificuldades na realização dos movimentos, as agressões, porventura, existentes, as vitórias ou as derrotas.
Os alunos devem perceber os resultados das atividades físicas como produto dos treinamentos, pois de certo modo contribui para o entendimento deles quanto às modificações fisiológicas e conhecimentos sobre o corpo.
Trata-se de muito mais que o aprendizado de movimentos de ataque, defesa, constitui-se no entendimento dessa manifestação cultural do movimento humano em todos os seus níveis e relações: a criação e desenvolvimento dos movimentos, historicamente produzidos, enquanto finalidade de combate ou autodefesa; os preceitos filosóficos que norteiam as artes marciais orientais e a relação desses com o contexto social e cultural na época; a presença em filmes e desenhos animados e a compreensão dos exageros e efeitos especiais; os eventos desportivos enquanto movimentos sociais, econômicos e políticos; as diferenças entre as modalidades; os benefícios e riscos, psicológicos e físicos, da prática de lutas.
As lutas e as artes marciais, quando trabalhadas em Educação Física Escolar, podem ser utilizadas como apenas instrumentos pedagógicos, visando oportunizar situações para desenvolver aspectos diferentes do aluno como psicomotor ou afetivo. Em uma analogia com o futebol escolar, este seria utilizado para desenvolver aspectos sociais como a cooperação, integração, sem haver preocupação do professor em trabalhar os conhecimentos específicos desse esporte (por exemplo: as regras, a estrutura, posição dos jogadores, eventos esportivos, fundamentos do esporte). É possível, seguindo uma tendência crítica nas aulas de educação física, contudo, estar-se-ia perdendo todas as possibilidades de informações peculiares a uma luta em específico: como a historicidade, o movimento cultural e político que fomentou a criação da luta, as diferenças entre os povos, entre outras.
A própria Educação Física ainda está em busca de sua identidade. E as lutas, como ramo da Educação Física Escolar, estão em situação menos avançada. É fácil constatar a estagnação em que se encontra, verificando-se o reduzido número de obras literárias específicas a respeito.


Contribuição pedagógica

Associada às aulas de Educação Física, as atividades de lutas oportunizam o desenvolvimento de um caráter autoperceptivo dos alunos, pois, quando utilizadas como instrumento de aprendizagem, colocam dificuldades motoras e psicológicas, potencializando a formação de um ambiente reflexivo e autocrítico para solução e compreensão dos problemas.
Vimos que a Educação Física trabalha com as formas de representação e compreensão do mundo expressas pelo corpo, portanto, o professor deve proporcionar aos seus alunos, assim como dizem os Parâmetros Curriculares Nacionais, a ampliação do repertório gestual, de maneira a capacitar o corpo para o movimento, possibilitando sentido e organização às suas potencialidades.
Porém, não basta demonstrar uma série de movimentos e pedir para que os alunos reproduzam. É preciso que a luta tenha um significado na aprendizagem. E, para isso, o professor deve planejar antecipadamente o que irá fazer e definir seus objetivos com clareza, para que a aula com lutas não se torne enfadonha e desestimulante.
O desenvolvimento cognitivo, intelectual, ou simplesmente, a “aquisição de conhecimento”, em lutas trata-se mais que saber o que é um “soco”, ou o que é a “Luta Livre”. Mais que repetir dezenas de movimentos existentes nas lutas, o educando necessita apreender os conceitos gerais que estão contidos em cada um desses gestos.
Muitos conceitos aprendidos com os movimentos de lutas, serão aproveitados em outras atividades físicas ou modalidades esportivas. Por exemplo, o conhecimento básico de quedas, ensinado no Judô, muito útil será para a vida toda do indivíduo, que poderá reduzir ou evitar danos em acidentes que lhe ocorram. Os conceitos de luta podem ser traduzidos para situações diárias do aluno, onde manter o autocontrole e escolher a melhor alternativa segundo o problema identificado (conceitos de “defesa” e “contra-ataque”), pode ser o caminho para uma vida social em equilíbrio com colegas, professores e amigos.
Assim, é possível a utilização das modalidades de lutas para o desenvolvimento do aluno de uma maneira ampla. Isso significa que além das práticas corporais, deve ser somada às praticas de comportamento e atitudes, de estímulo à pesquisa individual e a reflexão, para que os educandos não se limitem apenas aos momentos com o professor, mas utilizem o que aprenderam de bom e busquem mais conhecimento, fora das aulas.
A prática em uma modalidade de luta ou arte marcial pode apresentar mais benefícios em um aspecto que a prática em outra. Não é possível precisar essa diferença e o professor deve diversificar as atividades, para permitir o conhecimento da dimensão do universo das lutas e artes marciais. Na Capoeira, por exemplo, existem oportunidades para desenvolver o senso crítico, político e social, ao estudarmos o seu surgimento.
Sendo assim, sabendo que a luta é um instrumento com grande teor físico, emocional e intelectual, que contribui diretamente para o desenvolvimento global do indivíduo, e que esta arte faz parte da cultura humana, sua presença na escola é justificada, pois, por meio dela, o educando desenvolve a compreensão de sua capacidade de movimento, mediante um maior entendimento de como seu corpo funciona, podendo usá-lo expressivamente com maior inteligência, autonomia, responsabilidade e sensibilidade.
A luta é uma forma de integração e atividade coletiva, em que o educando tem a possibilidade de exercitar a atenção, a percepção, a colaboração e a solidariedade. Contribui, também, para o desenvolvimento do aluno no que se refere à consciência e à construção de sua imagem corporal, aspectos que são fundamentais para seu crescimento individual e sua consciência social. Por meio da luta, o indivíduo pode conhecer a si próprio e aos outros, explorar o mundo das emoções e da imaginação e criar e descobrir novos movimentos.
Além disso, são explorados aspectos relativos à flexibilidade articular e à capacidade aeróbica. A concentração, a adequação psicossocial, a melhora da autoestima, o respeito e a disciplina são valores agregados à prática da luta.
Alguns objetivos possíveis de obter-se com a prática de artes marciais:
Equilibrar no ser humano os desejos com as tendências vocacionais, de tal forma que aprenda desejar o que na prática faz da melhor maneira;
Desenvolver o potencial do homem forte e corajoso, para o bem, o justo, o belo e o verdadeiro;
Ensinar a lidar com o medo;
Ensinar a viver estrategicamente;
Propor soluções de como preservar a saúde e controlar o estresse;
Ensinar a lidar com a solidão extraindo a mensagem do silêncio;
Mostrar como desenvolver a personalidade taticamente;
Mostrar como criar uma técnica que permita que os ideais conduzam a ações práticas em todos os instantes da vida;
Desenvolver o espiritual e o humano;
A prática da Filosofia das Artes Marciais implica, pois, uma forma de vida sóbria, sensata, paciente, plena de amor e em harmonia com todo o universo.

Conclusão

Com base neste estudo aqui apresentados, pode concluir que as lutas são de suma importância para o processo ensino aprendizado de alunos das escolas. Os professores tem que incluir as lutas (jogos de oposição) em suas aulas, mesmo se os mesmos não forem formados em modalidades. É importante, mostrar para cada aluno o verdadeiro significado do “Ensinar Lutas”.

Referências

DEL VECCHIO, F. B; FRANCHINI, E. Princípios pedagógicos e metodológicos no ensino das lutas. 2012.
GALATTI, L. R., Et al. Pedagogia do esporte e competição Infantil: analise e proposições a partir do karate de contato. Movimento & Percepção, Espírito Santo do Pinhal, SP, v.8, nº 11, jul/dez 2007.
LANÇANOVA, J. Lutas na Educação Fisica Escolar: Alternativas Pedagogicas. Disponivel em: http://lutasescolar.vilabol.uol.com.br/cap_dois.html

 PRADO, I. G. A. et al. Parametros Nacionais – 1° e 2° ciclo. Disponivel em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro07.pdf
 PRADO, I. G. A. et al. Parametros Nacionais – 3° e 4° ciclo° ciclo. Disponivel em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/fisica.pdf
 SOUZA, D. P.; FÁVERO M. T. M. Educação Física na perspectiva dos parâmetros curriculares nacionais para o ensino fundamental. Revista Digital. Buenos Aires, ANo 15, Nº 147, Agosto de 2010

 
 FERREIRA, H. S. A utilização das lutas como conteúdo das aulas de Educação Física. Revista Digital - Buenos Aires - ANo 13 - Nº 130 - Março de 2009